“O castigo da soberba”, Ariano Suassuna – Abertura da Mala da Leitura na 2ª fase.

21 mar
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   A abertura do projeto da “Mala da Leitura”, para os alunos da 2ª fase do Ensino Fundamental, se deu com a dramatização do entremês popular, O castigo da Soberba, escrito pelo paraibano Ariano Villar Suassuna.

Ariano Villar Suassuna – Breve Biografia

   Esse famoso escritor nordestino, nascido em João Pessoa, no Palácio da Redenção, sede do governo do Estado da Paraíba, á 16 de junho de 1927, era filho do Governador do Estado, João Urbano Pessoa de Vasconcellos Suassuna.  Apesar de ser filho de uma família nobre, Ariano, passou por grandes obstáculos em sua vida. Seu pai fora assassinado quando era Deputado Federal, no Centro do Rio de Janeiro, antiga Capital Federal, no ano de 1930, quando Ariano tinha apenas três anos de idade.

   Desde então, sua família viu-se obrigada a mudar constantemente a fim de fugir das perseguições, estabelecendo-se, inclusive, no Sertão dos Cariris Velhos da Paraíba, na cidade de Taperoá. Iniciou seus estudos em 1934, no internato do Colégio Americano Batista, em Recife, cidade que adotou como sua terra natal até os dias de hoje. Depois de concluir o curso clássico, estudou Direito.

   No ano de 1947, publicou sua primeira peça teatral, intitulada de Uma mulher vestida de sol. Com essa peça recebeu o prêmio Nicolau Carlos Magno. Continuou escrevendo para o teatro, sendo sempre elogiado pela crítica e pelo público. No ano de 1955, publicou uma de suas obras mais famosas, baseada em três narrativas do romanceiro nordestino, o famoso Auto da Compadecida. Já famoso, funda ao lado de Hermilio Borba Filho, o Teatro Popular do Nordeste.

   Foi membro fundador do Conselho Nacional de Cultura e Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco. Nesse período começa a articular o Movimento Armorial, cujo objetivo principal era a defesa da criação de uma arte erudita nordestina a partir de suas raízes populares.

   Ao concluir em 1970, outra obra famosa: Romance d’A Pedra do Reino, juntamente, com um concerto intitulado de Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial, lança no dia 18 de outubro, com uma exposição de gravuras, pinturas e esculturas, no Recife, o Movimento Armorial.

   Publicou em agosto de 1971, A Pedra do Reino. E no ano seguinte, ganhou o Prêmio Nacional de Ficção, do Instituto Nacional do Livro. Devido a essa premiação, foi eleito para ocupar a cadeira de nº 32, da Academia Brasileira de Letras, da qual tomou posse à 09 de agosto de 1990.    

   Atualmente, está com 85 anos de idade e atua na política como Secretário de Assessoria, do governador do Estado de Pernambuco, Eduardo Campos.

 Entremês popular

   É classificada como um entremês popular em um ato, uma peça dramática jocosa e de um só ato, protagonizada por personagens de classes populares. O auge desse tipo de representação teatral foi durante o Século de Ouro Espanhol, mais especificamente nos séculos XVI e XVII, findando no século XVIII, quando foi proibida como manifestação artística, no ano de 1780, perdendo forças para o levante “romântico” que invadiu as artes na época.

   No continente Europeu, a farsa é o tipo de peça teatral equivalente ao entremês. A farsa é uma obra teatral cuja trama e estrutura são baseadas em situações em que as personagens se comportam de maneira extravagante e estranha. Contudo, no geral, a trama embora exagerada, assegura em sua estrutura elementos que lhe garante alguma credibilidade. O nome Farsa tem sua gênese na palavra latina Farcire (rechear, encher, lotar, completar). Disse significado, retiramos o costume de “rechear” as Farsas com breves interlúdios ora cômicos, ora seriamente dramáticos. Esses trechos, em especial, nos quais os autores optam por exagerar a realidade, tem a finalidade de tornar a crítica social proposta no texto evidente ao público. Assim, ainda que os temas e as personagens sejam fantásticos, as características que os definem são verossímeis, isto é, críveis. Logo, a Farsa é um subgênero cômico, que longe de ser grotesca, apresenta em sua essência extremos impensáveis de sutileza e, consequentemente, críticas refinadíssimas ás situações sociais abordadas. Por esse caráter sutil, a Farsa é tida como uma obra desafiadora para seus intérpretes. 

O castigo da Soberba – Entremês popular em um só ato

  A origem desse poema religioso é da cultura oral popular nordestina. Ele reúne inúmeros conceitos e crenças básicas da religiosidade do povo do Nordeste do Brasil. Trata-se de uma história do julgamento a que é submetida uma alma arrogante no purgatório, um processo parecido com o que acontece num tribunal de justiça. Nele o promotor público e acusador é representado pela personagem do Satanás. O juiz é o próprio Jesus. O papel mais importante é desempenhado pela Virgem Maria, que atua como advogada de defesa, cuja missão de intercessora dos homens, é um conceito básico do dogma tradicional e popular católico. Esse julgamento é extremamente divertido por causa da linguagem utilizada, que provoca humor no leitor.

No entanto, o que sustenta o poema é o papel da Virgem Maria, como mãe de Jesus que é, ao mesmo tempo, Deus e Homem, assim como o corolário* humano de filho bom e obediente, que é incapaz de recusar um favor ou pedido à mãe querida. Disso, o pecador recebe uma segunda chance, ainda que Jesus, juiz sério, queira condená-lo “como Deus manda”. Já para o Diabo, o único consolo que resta é o aforismo*: “a mulher se mete em tudo”.

Em suma, é está crença e prática básica, a fé em Nossa Senhora, mãe de Deus e intercessora do ser humano, que constitui parte importante do catolicismo praticado em tantos países do mundo e, em particular, no Nordeste brasileiro. Não há exemplo melhor de cordel que retrate a religião de um povo.

Essa peça foi escrita por Ariano Suassuna no ano de 1952 e adaptada a outra obra do autor, a saber, Auto da Compadecida, na cena em que João Grilo é julgado no purgatório. O título, O castigo da soberba, é inspirado em um verso da peça Os Persas, do teatrólogo grego do período clássico Ésquilo. Sua fonte de inspiração para a elaboração dessa peça é a cultura popular nordestina, tema esse que o acompanhou em grande parte de suas obras. A ideia de Suassuna ao escrever O castigo da soberba era de transpor para o teatro um auto popular nordestino com influências do teatro popular espanhol e português, por isso, o subtítulo dessa peça é: Entremês popular em um só ato.

Depoimento da Professora de Artes – Laila Cristina

   “No dia 08/03 fiz uma dramatização do texto “O castigo da soberba” de Ariano Suassuna, (o mesmo autor do filme Auto da Compadecida), na abertura do projeto mala da leitura da Escola “Orientar Centro Educacional”. Ao todo represento sete personagens, onde cada um possui uma hierarquia, para compor a cena utilizo como cenário apenas uma mesa e uma cadeira. Com bastante expressão corporal, cambalhotas e piruetas.

Gostei de ouvir um aluno dizer que foi difícil acompanhar, pois uma hora eu estava de um lado do palco, outra hora estava de outro, não podia piscar que me perdia de vista. Ao entrar em sala de aula ouvi outro aluno dizer:- como consegui decorar um texto tão grande. Isso me fez perceber que os alunos se motivaram para aprender uma profissão e fazerem suas próprias interpretações.

Sinto-me honrada por isso, foi assim que eu comecei, aos oito anos de idade, na escola, que comecei a fazer teatro e minha primeira peça foi “ O velhinho que dava corda no relógio da matriz”, da minha professora de português Fatinha. É com muito orgulho que eu falo no nome dela e agradeço de todo o coração, reconheço, hoje sou o que sou graças a ela, que despertou em mim o desejo de ser atriz.

Na oportunidade quero dar o meu depoimento aos alunos sobre o projeto mala de leitura: ler é prazeroso, é viajar, é interpretar, é criar história. Ao dramatizar colocamos em cena, ilustrando, dando vida, sentimento ao personagem, é emocionante ver a alegria das pessoas, deixá-las deslumbradas. E é com grande satisfação que mostro aos meus alunos o que eu sei fazer de melhor, e quem sabe também despertar neles esse dom maravilhoso que é a interpretação em cena “teatro”.  As habilidades se aprendem, são ensaios, persistência, ação. Arte é isso, um caminho a percorrer, o que o meu espectador irá sentir. E quando sei que o emocionei de alguma forma, meu objetivo foi alcançado. Alunos leiam!!! Todo o processo de linguagem e escrita tem um grande avanço e facilita a aprendizagem em todas as disciplinas que necessitam de interpretação, pensamento crítico”.

 

Legenda

*corolário – Nesse texto, pode ser compreendida como uma proposição resultante de uma verdade.

*aforismo – Máxima enunciada em poucas palavras que geralmente encerra em um preceito moral (contudo, no contexto aqui apresentado, culmina em um ditado, cujo significado é pejorativo e um tanto machista).

 

Bibliografia

Cotarelo y Mori, Emílio. Bosquejo histórico del entremés, desde Lope de Rueda a Quiñones de BenaventeCon cinco entremeses inéditos de D. Francisco Quevedo. Madrid: Gredos, 1971.

Curran, Mark J. Retrato do Brasil em Cordel. São Paulo: Ateliê Editorial, 2011.

Holbrook, Richard R. Guilhaume Alecis et Pathelin. University of California Press, 1926. Citado por The Modern Journal, volume 13, nº 08. (May 1929) pp. 688-690.

Pérez de Léon, Vicente. Sobre la realidad improvisada en el teatro del Siglo de Oro. Hispania 87.1 (2004): 13-21. Web 20 Nov 2011.

Site da Academia Brasileira de Letras – Ariano Suassuna (Biografia) < http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgiwa.exe/sys/start.htm?sid=305> Acessado em 21 de março de 2013.

 

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